I Encontro INTER PARES – Reflexões dos professores participantes sobre o filme “A
Onda”
Autores: Noemia Davidovich Fryszman, Antônio Carlos Malheiros, Albert Hemsi,
Humberto Lima de Aragão Filho, Paulo Roberto de Camargo e Roberto Santos
Índice
Quando crescer, quero ser como Rita | Noemia Davidovich Fryszman
Filme “A Onda” | Antônio Carlos Malheiros
Fotografia e Roteiro na construção da mensagem do filme “A Onda” | Albert Hemsi
A onda – o vagalhão contra a liberdade | Humberto Lima de Aragão Filho
Aspectos subjetivos do filme “A Onda” | Paulo Roberto de Camargo
A onda: O vírus dentro de nós | Roberto Santos
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“Quando crescer, quero ser como Rita”
Noemia Davidovich Fryszman | Doutora pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Mestre pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade
de São Paulo. Professora do Curso de Comunicação Social das Faculdades Integradas Rio Branco.
O INTER PARES foi criado com o objetivo de promover
debates de alto nível acadêmico entre professores
de todas as unidades das Faculdades Integradas Rio Branco, sendo aberto à
presença dos alunos. O evento consiste em discutir temas escolhidos por sua
relevância curricular, possibilitando que as mais diversas linhas de pensamento
sejam expostas e levando os alunos a desenvolverem seu senso crítico.
A inspiração para criar o projeto partiu do teto ”Quando
for crescido quero ser como Rita”, de José Saramago, que utilizamos
como epígrafe, na sua forma reduzida e adaptada, para a abertura oficial
do I Encontro:
Essa Rita a quem quero parecer-me quando for crescido é Rita
Levi-Montalcini, ganhadora do Prêmio Nobel de Medicina em 1984 por suas investigações
sobre o desenvolvimento das células neurológicas.
Ora, Prêmio Nobel é coisa que já tenho, logo não seria
por ambição dessa grande ou pequena glória que estou disposto
a deixar de ser quem tenho sido para tornar-me em Rita. É simples. No ato
do seu investimento como Doutora “Honoris Causa” na aula magna da Universidade
Complutense de Madri, esta mulher, que logo completará 100 anos, fez umas
tantas declarações que me deixaram assombrado e agradecido. Disse
ela: Nunca pensei em mim mesma. O importante é a maneira como vivemos e a
mensagem que deixamos. Isso é o que nos sobrevive. É verdade que vejo
mal e ouço pior, mas o fundamental é manter o cérebro ativo
e manter a curiosidade pelo mundo”. E Saramago conclui: “eu senti então
que havia encontrado uma alma gêmea.
Eu, quando crescer, também quero ser como Rita, nunca quero deixar de aprender
e hoje estou aqui para aprender com os meus queridos pares.
O I Encontro INTER PARES teve lugar no auditório das faculdades
em maio de 2010, quando foi apresentado o filme “A Onda”,
versão alemã de 2008, do diretor Dennis Gansel. Nesta obra, um fato
real, ocorrido em 1967 no Colégio Cubberly, na Califórnia, é
transportado para a Alemanha contemporânea.
A experiência verdadeira, na qual o filme se baseou, foi dirigida por Ron
Jones, professor de História, que teve a ideia de realizá-la após
ser indagado por um aluno, ao ministrar uma aula sobre o nazismo e o Holocausto,
se algo semelhante poderia acontecer ali. Ron Jones, então, instituiu uma
espécie de jogo com seus alunos, para que eles vivenciassem na prática
os mecanismos do nazismo.
Contudo, ele não pôde imaginar que os alunos ficariam envolvidos a
ponto de incorporar a ideologia fascista, abrindo mão da sua liberdade individual
e passando a defender a causa que supostamente os imbuía de superioridade.
A individualidade foi praticamente aniquilada, em favor de uma uniformidade grupal
moldada em técnicas repressivas, internalizada por meio de férreos
processos disciplinares. Os poucos alunos que não se identificaram com a
experiência foram ignorados e hostilizados.
No primeiro dia, os alunos entraram na sala de aula ao som de uma música
de Wagner, considerado o compositor oficial do regime nazista e, no quadro, a palavra
“disciplina” destacava-se em tamanho superlativo. As carteiras estavam
alinhadas à semelhança de uma formação militar e, após
forçar os alunos a se sentarem com as costas eretas, Ron Jones começou
um discurso sobre disciplina, que culminou com a inscrição na lousa,
em letras enormes: “Força através da Disciplina”.
No segundo dia, o professor Jones criou uma forma de saudação cujo
objetivo era permitir a identificação dos membros do grupo mesmo fora
da sala de aula. Foi neste momento que os alunos foram doutrinados a respeito da
prevalência da ideologia coletiva sobre a consciência pessoal. Neste
contexto, surgiu o bordão – “Força através da Unidade”,
inflamando nos alunos a vontade de “pertencer”. Estava criado, assim,
o segundo passo da doutrina e, como a saudação do grupo lembrava uma
onda, o movimento passou a denominar-se “A Onda”.
Crescia o número de alunos querendo incorporar-se ao grupo, muitos faltando
em suas aulas regulares para tornarem-se ativistas da comunidade ideológica.
Chegou a fase crucial e um novo lema foi lançado: “Força através
da Ação”. A partir deste momento, a realidade mostrou-se cruel,
quando colegas se transformaram em delatores, informando ao professor os nomes dos
que se recusavam a participar do movimento. Os acontecimentos chegaram à
mídia, prendendo a atenção dos cidadãos americanos,
que passaram a discutir apaixonadamente o assunto. Cada vez mais os alunos começaram
a incorporar o papel que eles deveriam estar apenas representando, misturando realidade
e ficção, na medida em que as regras do “jogo” se tornavam
mais severas.
Os integrantes de “A Onda” mostravam-se deslumbrados pelo carisma de
seu líder, hipnotizados por seu discurso encantatório, sendo levados
a seguir suas ordens sem questionar. O próprio professor Jones confessou,
em entrevista, que se sentiu tentado pelo poder que exercia sobre os jovens.
Um trágico acidente fez culminar o clamor popular e levou à interrupção
do projeto: um aluno, decidido a partir “para a ação”,
teve a mão amputada ao manipular uma bomba de fabricação caseira.
Contudo, o que mais chocou a opinião pública americana foi a percepção
de que um regime totalitário pode acontecer em qualquer lugar, a qualquer
época.
A meu ver, uma das principais lições que devemos depreender da experiência
real, transformada no filme projetado no I Encontro, é o poder de manipulação
que o professor possui. Ele tem a força política de levar jovens em
formação a abrirem mão de seus valores individuais e aceitarem
que instituições que deveriam promover uma convivência social
harmoniosa possam se transformar em instrumentos de dominação e imposição
de valores totalitários.
O antídoto contra isso é a circulação do pensamento,
o debate, o livre encz ontro de pares com suas ideias plurais. Por isso convidamos
os colegas a participarem como debatedores nos próximos Encontros e aceitamos
sugestões de temas e filmes a serem abordados.
Filme “A Onda”
Antônio Carlos Malheiros | Desembargador do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. Coordenador da Vara Regional da Infância e Juventude do Estado de São Paulo. Professor Titular de Direito da Pontifícia Universidade Católica de
São Paulo. Professor do Curso de Direito das Faculdades Rio
Branco.
A autocracia, regime de governo imposto por líderes totalitários,
é a temática que serve de argumento para o filme “A Onda”
(que, segundo sinopse, é baseado em fatos reais). O desinteresse
dos alunos na disciplina que tratava da ascensão de regimes autocráticos,
como o nazifascismo, levou o professor a realizar uma experiência, reproduzindo
em sala de aula mecanismos de manipulação, típicos do regime
estudado.
O professor impõe uma eleição “democrática”
e torna-se o líder do movimento que passam a chamar de “A Onda”.
Os alunos passam a seguir suas ordens cegamente. Rituais e slogans como “disciplina”,
“unidade”, o “espírito de equipe”, o uso de uniforme,
além de um gestual e símbolo gráfico, passam a marcar a identidade
do grupo. Quem se atreve a discordar ou não obedecer o poder superior do
líder, que o faz em nome do interesse do grupo sobre os indivíduos,
é perseguido e ameaçado de exclusão.
Assim, “ a onda” cresce, ganha adeptos, se opõe violentamente
aos demais grupos sociais e juvenis, demonstrando sua superioridade e a necessidade
de eliminar os “opositores”, que seriam prejudiciais à sociedade.
O resultado não poderia ser outro: o fanatismo, mais acentuado em jovens
com problemas psicológicos, sai do controle do professor. Quando ele resolve
“desmascarar” o movimento, revelando sua face totalitária, e
alertar os alunos sobre a ausência de consciência crítica, já
era tarde, e o fim da história é dramático. Ou seja, no microcosmo
de uma escola secundária, e de uma pequena comunidade, é feita uma
experiência comum a todos os regimes totalitários.
O filme enfoca, assim, o risco sempre existente no mundo, de que, diante de situações
de crise social (causada pelo medo, insegurança, ou situações
limites como calamidades, guerra e fome generalizada), surjam líderes totalitários
e míticos, seja nos campos político, religioso, ou social, manipulando
as massas.
Após a Segunda Guerra Mundial, em resposta à experiência dolorosa
de genocídio causado pela guerra e pelo nazifascismo, cria-se a Organização
das Nações Unidas e proclama-se a Declaração Universal
dos Direitos Humanos. Procura-se, assim, defender os povos e os seres humanos de
lideranças autocráticas e totalitárias. Infelizmente, como
no filme “A Onda”, a humanidade só acordou depois de consequências
devastadoras e irreversíveis.
A defesa dos Direitos Humanos, da dignidade de todas as pessoas humanas, e de Estados
Democráticos e sociais de Direito são os “antídotos”
contra a emergência de ideologias totalitárias e líderes genocidas.
É bom lembrar que mesmo depois de proclamada a Declaração Universal
dos Direitos Humanos, muitos líderes políticos atuaram e atuam de
forma totalitária: ditadores em várias partes do mundo, e movimentos
(como “a onda” ) atuaram de forma totalitária, como por exemplo
(entre muitos) a Ku klux Klan (nos Estados Unidos), o Apartheid (na África
do Sul), e até os movimentos religiosos intolerantes e fundamentalistas,
existentes dentro de todas as religiões.
Assim, a defesa dos direitos deve ser constante. E mais: nessa batalha,não
vale a ideia de que “os fins justificam os meios”. Ou alguém
ainda duvida que a “guerra ao terror” promovida contra o Afeganistão
e Iraque, em nome da democracia e até dos direitos humanos (intuito de derrubar
líderes totalitários como Sadam Hussein, ou terroristas do Talibã),
não se prestou, também, a essa lógica genocida?
Assim/ Por isso, todos aqueles que se servem da psicologia das massas ou grandes
grupos humanos para impor um “pensamento único”, merecem nossa
desconfiança.
Por tais motivos, o filme “A onda” pode nos ajudar a refletir sobre
o estrago que a atitude totalitária e manipuladora de líderes políticos,
militares, civis e religiosos pode causar. Mas tem uma peculiaridade: embora no
filme a experiência tenha sido provocada propositalmente. ela ocorreu numa
pequena comunidade, como a de qualquer um de nós. Assim, sugere: será
que, quando em nossos relacionamentos pessoais e sociais, temos atitudes autoritárias,
intolerantes, excludentes, individualistas e preconceituosas, não estamos
plantando, entre nós, sementes de “onda” ?
Fotografia e Roteiro na construção
da mensagem do filme “A Onda”.
Albert Hemsi | Doutor em Artes pela Universidade de São Paulo. Mestre em Educação pela Universidade de São Paulo. Professor do Curso de Comunicação Social das Faculdades
Integradas Rio Branco.
O que chama a atenção do espectador, primeiramente, nessa refilmagem de “A Onda”, dirigida por Dennis
Gansel, é como a luz se faz presente em excesso: dias ensolarados, janelas
amplas e luminosas, pôr e nascer do sol, fotografia no contra-luz. O totalitarismo
acontece em plena luz do dia e não na obscuridade do ser humano, esta parece
ser a mensagem do diretor.
O drama, que se inicia em um curso de uma semana numa escola secundária da
Alemanha, na qual o prof. Rainer propõe de modo espontâneo exemplificar,
na prática, os regimes totalitários, retrata, a partir da formação
de um grupo coeso e de pensamento unitário que logo se espalhará pela
escola, um movimento de consequências imprevistas, com relações
sociais e afetivas que se modificam em sala de aula e também fora da instituição.
São essas relações nas quais todos se envolvem, por adesão
ou oposição, que estabelecem os polos de conflito da construção
da trama, a ponto de se tornarem, conjuntamente com o professor, personagens principais
da estória.
O filme apresenta ainda, de modo quase pedagógico, outras questões
da atualidade que afetam diretamente os jovens alunos: os mecanismos de aceitação
ou exclusão, associados à classe social ou a origem étnica;
a liberalidade dos pais ou o desinteresse destes pelas atividades dos filhos; a
atitude desinibida da geração anterior com relação ao
sexo em contraposição às dificuldades do jovem na construção
de uma vida afetivo-sexual; a formação de pequenos grupos de interesse
comum. Este é o contexto em que o movimento desencadeado na aula do Prof.
Rainer mostra sua força de união e reorganização social.
Mas, em qual momento da estória, esse grupo formado em classe, interessado
e cooperativo, se transforma em totalitário e segregador? Ou, do ponto de
vista da construção do roteiro, quando o eixo dramático se
estabelece? Na cena em que os garotos e garotas ganham as ruas à noite para
colocar adesivos e pichar o desenho do movimento de maneira ilegal, embora movidos
de ingenuidade juvenil, ocupam o espaço público de forma agressiva
e simbólica.
Essa cena, que desencadeia a tensão que acompanhará o espectador até
o final do filme, tem seu germe um pouco antes, em plena sala de aula, quando, a
pedido do professor Rainer, os alunos marcham ruidosamente;com um duplo objetivo
- como é revelado em seguida pelo professor - de sentirem o efeito da disciplina
e do ritmo, como também de atrapalharem a aula da sala do piso abaixo, pois
ali era ministrado, concomitantemente, o curso sobre o anarquismo, grupo rotulado
pelo mentor de “inimigo”. É a partir dessa ação
do professor que a turma se sente encorajada a promover seu movimento por força
de coerção.
Apesar do ritmo e do efeito expansivo que o movimento ganha, no qual os jovens envolvidos
vão buscar soluções para suas carências apoiados no poder
do grupo, os personagens e suas ações, todavia, se demonstram previsíveis:
o desajustado social, que conquista a amizade dos colegas e compra uma arma para
“proteger” seus iguais; os namorados que entram em conflito até
a agressão física; a amiga que se envolve com o namorado da outra;
o jovem filho de emigrantes turcos que é aceito no grupo apesar dos preconceitos
inerentes à sociedade alemã; e, até mesmo, o professor Rainer
que necessita afirmar-se junto à seus pares como um docente com qualidades,
querido e respeitado pelos alunos.
Mas se essa previsibilidade é quase tediosa, como no encontro entre alguns
alunos e um grupo de anarquistas, cena elaborada para que o espectador saiba que
o jovem desajustado possui um revólver, como explicar no encadeamento da
construção dramática que “A Onda” e sua condução
pelo seu mentor estariam fora de controle? Este é o paradoxo do roteiro,
articulado de maneira progressiva e quase didática, por vezes óbvia,
e que, no entanto, mantém o espectador sem fôlego, ao abordar uma situação
de força e coerção que permeia a história da humanidade.
É tão fácil assim se tornar uma pessoa totalitária e
segregadora? Parece que sim e esta é a mensagem principal do filme, que aponta
ainda para a questão do legado entre as gerações, representada
nos relacionamentos entre país e filhos-alunos, professor e discípulos
e, principalmente, pela esposa de Rainer, gestante, também professora, e
porta-voz da opinião dos outros colegas; um contraponto crítico às
ações do marido oriundo do âmago de uma futura família.
Ainda cabe ressaltar que nessa nova versão de “A Onda”, lançada
em 2008, o diretor opta por um final bem diferente da versão de 1981, também
baseada no romance de Todd Strasser (a partir de fatos reais), produzida para a
televisão americana e dirigida por Alexander Grasshoff. Nesta, o professor
é “absolvido” nas cenas finais, quando consegue mostrar aos alunos
que “A Onda” os havia levado ao núcleo do pensamento totalitário,
enquanto na versão alemã o final é menos feliz, pois, após
a conscientização dos alunos, o jovem desajustado, ao ver se desfazer
o movimento que permitiu sua integração ao grupo, fere um colega com
sua arma e comete o suicídio. No final o professor é levado preso.
Não parece haver espaço histórico na sociedade alemã
para um final conciliador quando esse tema é abordado.
A onda – o vagalhão contra a liberdade
Humberto Lima de Aragão Filho | Doutor e Mestre em Letras pela Universidade de São Paulo. Bacharel em Teologia pelo STPC. Professor dos Cursos de Comunicação Social Direito e Relaçõ Internacionais das Faculdades Rio Branco.
O vocábulo “autocracia”, do grego autós
e kráteia, abordagem temática do filme “A onda”, significa
“governo de si mesmo”, “governo próprio” e caracteriza
o governo ditatorial, o governo de poderes absolutos que faz do arbítrio
um instrumento sufocante da liberdade.
O filme retrata uma experiência real ocorrida na Califórnia, em 1967,
quando um professor vivencia com seus alunos a estrutura fascista e o exercício
centralizado do poder político, tolhendo qualquer comportamento que se insurgisse
contra a unidade imposta. Imantados por uma ideologia hegemônica e tendo como
lema “força pela disciplina”, os participantes do movimento “A
onda” rechaçam quaisquer manifestações contestatórias,
debelando-as mediante pressões físicas e psicológicas.
Mas o estado democrático de direito é, em essência, pluralista;
estado no qual a diversidade e as diferenças são respeitadas constitucionalmente.
Não é um estado homogêneo, em que os vagalhões chicoteiam
a liberdade de expressão, a liberdade político-ideológica,
a liberdade religiosa, as manifestações do exercício do livre-arbítrio
e da autodeterminação, enfim, a liberdade de ser.
A liberdade não é um estado natural. É uma conquista de cada
dia. A ratificação do direito de possuí-la deve manifestar-se
como uma expressão máxima de cidadania. Seu aperfeiçoamento
teórico é praticamente recente – data do século XVIII,
abrangendo a Inglaterra e a França. Os ingleses a conheciam; os franceses
a idealizaram mediante o sonho utópico dos revolucionários. A liberdade
anglicana, empírica e assistemática, fundamentou-se nas tradições
e instituições que emergiram espontaneamente e na jurisprudência
do direito consuetudinário; a liberdade galicana, racionalista e especulativa,
foi delineada pelos expoentes do iluminismo francês, particularmente Diderot,
D’Alembert e Rousseau. Ambos os conceitos angariaram simpatizantes que transcenderam
as tonalidades nacionais: Montesquieu e Tocqueville, franceses, inclinaram-se para
o tradicionalismo inglês, enquanto Thomas Hobbes, inglês, exaltou a
tradição racionalista da França.
No livro The Origins of Totalitarian Democracy, J. L. Talmon estabelece as seguintes
diferenças entre uma liberdade e outra: “A primeira vê a essência
da liberdade na espontaneidade e na ausência de coerção; a segunda
acredita que a liberdade só se concretiza na busca e realização
de um propósito coletivo absoluto. A primeira defende a evolução
orgânica, lenta e parcialmente consciente; a segunda a determinação
doutrinária. Uma é a favor do processo experimental; outra, de um
padrão obrigatório, considerado o único válido”.
Curiosamente, os países europeus que iniciaram sua conceituação
foram os mesmos que exerceram o colonialismo repressor em terras da América,
da Ásia e da África. Assim, a liberdade permaneceu circunscrita à
clausura das tradições britânicas e ao devaneio libertário
da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, decretada
pela Assembleia Nacional em agosto de 1789.
Castro Alves, o poeta abolicionista, bardo da liberdade em terras brasílicas,
nos versos de “O povo no poder”, afirma:
A praça! A praça é do povo
Como o céu é do condor.
É o antro onde a liberdade
Cria asas em seu calor!
A praça é a ágora, o nicho da democracia grega,
símbolo da liberdade a que aspiram os oprimidos e os perseguidos, homens
de várias etnias, marionetes fragilizadas diante de um estado absoluto, e
submetidas ao impacto da rendição perante a beligerância das
armas, a força da intolerância e o ódio da discriminação.
A liberdade é, pois, do povo, como o céu pertence à ave dos
voos altaneiros. E o povo deve criar asas, não como as de Ícaro, mas
asas que o sustentem e o conduzam a descortinar os horizontes libertários
da solidariedade, da concórdia, do respeito mútuo e da valoração
da vida.
O massacre de povos, como ocorreu com os armênios e judeus no século
passado, a prepotência imperialista de países que não respeitam
a soberania e a autonomia política de outros estados são ações
agressoras à liberdade, ações que dilapidam a esperança
de uma sociedade capaz de descobrir na pluralidade das religiões e das culturas,
dos costumes e das tradições, das raças e das linguagens o
gesto humanitário do acatamento às diferenças.
São necessários povos livres, homens livres, uma imprensa livre, uma
justiça igualitária, um ministério público sem mordaças,
para que a liberdade de construir a nossa história e o nosso destino seja-nos
assegurada.
Aspectos subjetivos do filme “A Onda”
Paulo Roberto de Camargo | Doutor em Ciências Socias/Política pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Mestre em Psicologia Social pela pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Professor do Curso de Comunicação Social das Faculdades Rio Branco.
O próprio título “A Onda” nos permite verificar
qual é o sujeito do filme. Para nossos propósitos não se trata
de um indivíduo na forma humana como personagem principal,
mas sim de um sujeito que exclui a individualidade humana na sua complexidade e
riqueza quando estas são bem cultivadas: trata-se do surgimento de um fenômeno
de massa específico, ou simplesmente “A Onda”.
A especificidade de tal fenômeno deve ser bem definida, pois não se
trata de qualquer efeito de massa, o que pode gerar controvérsias bem fundamentadas
ao supor-se, por exemplo, que uma reação de massa a uma tirania, ou
uma simples participação em evento adquira a forma perversa da qualidade
da massa que estamos nos referindo como sujeito do filme. Trata-se da massa que
dá origem ao fascismo.
Para nossos propósitos de análise há uma psicologia específica
que norteia a onda e que foi exaustivamente estudada por alguns teóricos
como Reich e alguns pensadores da escola de Frankfurt como Theodor Adorno. Freud
estuda o fenômeno como a massa em si, independente da ligação
com o fascismo, mas que contribui significativamente para o estudo da psicologia
deste.
Para Reich, o fascismo é um fenômeno que tem na classe média
um apoio fundamental no processo, uma vez que é um estrato social que necessita
afirmar uma segurança constante em seu projeto de vida, mas que se sente
constantemente ameaçado por quaisquer sinais que ameaçam esse seu
projeto de vida. Dessa maneira, o anseio a uma vida segura quanto aos seus anseios
de vida futura fornece um substrato que pode legitimar líderes autoritários
que prometem um lugar seguro. Isso ocorreu na Alemanha com o advento do nazismo,
mas cujo fantasma permanece vivo nos dias de hoje, como assim demonstra o filme.
O argumento de que na época do nazismo havia uma grande crise econômica
que levava a população a se sentir humilhada, com um partido político
que fundamentava a pregação do ódio racial e a submissão
incondicional a um líder salvador para superar essa situação
não seja similar aos dias atuais, nos quais uma situação de
calma aparente e próspera em um regime democrático não propicia
o surgimento de uma massa irracional, mostra-se falso, pois a simples invocação
de uma experiência autoritária demonstra que suas motivações
encontram-se latentes.
No filme, uma vez que a experiência de um processo autoritário é
proposta pelo professor, a fácil adesão da quase totalidade dos alunos
se dá de forma imediata na sala de aula, na qual a coesão grupal se
dá pela padronização de condutas obedientes ao professor-líder
com o forte repúdio das diferenças simbolizadas pelos alunos que questionavam
o experimento. Estes dois fatores, submissão incondicional a um líder
e aniquilamento das diferenças são o fundamento da massa que dá
suporte ao nazismo.
Um tipo de personalidade que melhor ilustra a adesão incondicional a esse
tipo de massa, encontra-se no personagem Tim. Inseguro, vítima de brincadeiras
humilhantes por parte de colegas e pouco integrado tanto a estes quanto à
família, Tim encontra na “Onda” um lugar seguro que o provê
de coragem e determinação para compensar seus sentimentos de inferioridade.
Aqui é importante ressaltar que o seu objetivo mescla-se com os objetivos
da onda, não havendo uma separação entre este e a onda propriamente
dita. Para Freud, na massa há a diluição do indivíduo
nos seus aspectos racionais e valorativos que permite assim descarregar seus impulsos
hostis.
Tim revela a recompensa que um membro da massa recebe por participar da situação:
prestígio, por estar entre os preferidos e também a possibilidade
segura de descarregar sua agressividade em uma forte identificação
com os colegas e também com o professor-líder. Esta forma de conduta
foge obviamente ao controle racional e valores estabelecidos e passa a ter uma justificativa
em si mesmo: a supremacia do grupo ou então do raça, como foi o caso
do nazismo. Para tanto, faz-se necessário um alvo que possa servir de motivo
para ações violentas.
A transformação por que passa Tim revela que, em tal situação,
o perigo passa a ser mero detalhe, quanto mais desprezível pela ação
humana. O fato de que ele supera todas as condições e se infla de
onipotência no caso de subir ao topo do prédio para realizar a pichação,
façanha da qual nem os próprios colegas acreditavam que ele fosse
capaz. Ele se “eleva” a um plano maior, desmedido, acima de tudo. A
maneira como se formaliza o caráter agressivo e destrutivo da onda se dá
quando no encontro com o grupo rival de anarquistas, Tim saca um revólver
para resolver uma situação de conflito, na qual todos os demais estavam
desarmados. Dissuadido pelos colegas de levar a cabo tal ação, Tim
“brinca” ao dizer que a arma estava descarregada.
Se, nas condições da Onda, num primeiro momento a ameaça é
uma “brincadeira”, esta passa a ser verdadeira quando no desenrolar
dos acontecimentos, Tim passa a ser o guardião de professor-líder
e a se submeter e depender exclusivamente da vontade deste. Uma vez legitimada a
sua posição de guardião pelo professor-líder, quando
no final do filme este permite que ele se coloque em pé ao seu lado e, por
ocasião da possibilidade de dissolução da onda que já
tinha ido longe demais e ultrapassado os limites controláveis, a “brincadeira”
se torna realidade, quando Tim dispara de fato em seus colegas que para ele se tornaram
diferentes, ou seja, foram adeptos ??? à (pela) dissolução
da experiência da “Onda”.
Para a classe média atual que vive euforicamente e exclusivamente pelo consumo
no qual o individualismo exacerbado que afasta o indivíduo do contato humano,
de sua humanização, portanto, o filme “A Onda” possibilita
que seja feita uma análise dos reais valores que permeiam a formação
de nossos jovens, e o quanto eles são sólidos para que possam resistir
a aventuras que seduzem a resolução de inserção social
de maneira aparentemente fácil, sem um real esforço para se tornar
um indivíduo singular dentro da comunidade humana. Isso é uma das
reflexões que se pode desenvolver a partir do filme.
A onda: O vírus dentro de nós
Roberto Santos | Especialista em Serviços pela Sorbonne - Paris. Bacharel em Administração pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Professor dos Cursos de Administração e Turismo das Faculdades Integradas
Rio Branco.
O filme “A onda” (2008), refilmagem do original americano de 1981, relata um caso verídico, resultado de uma experiência
realizada numa escola secundária em 1967 na Califórnia.
Mais do que recontar a história, o filme traz à tona novamente a reflexão
sobre a ameaça do autoritarismo e do etnocentrismo em pleno século
XXI, falando mais diretamente ao público juvenil, por ser ambientado entre
jovens contemporâneos e “descolados”, rodeados por celulares,
mp3s e computadores.
Mudam a roupagem, os cenários, os jovens, mas sua essência sinistra
continua ali vívida, como um vírus à espreita, esperando o
melhor momento para atacar, mas assim como nos corpos atacados, o inimigo não
se encontra lá fora.
A ameaça vem de dentro, do íntimo de cada um, pois é lá,
em nosso interior mesmo, que vive a intolerância à diferença
e a tentação e a vontade de impor aos outros, “os diferentes”,
os nossos próprios valores, sedentos de que todos sejam iguais.
No entanto, a própria natureza mostra que justamente é a diferença
que leva à evolução, como magistralmente observou Darwin.
Galileu ousou postular que a Terra girava ao redor do sol e não o contrário,
desafiando a absoluta maioria católica.
Da Vinci desafiou o pensamento vigente e deu à civilização
inúmeros protótipos de invenções que viriam a ser aprimorados
séculos depois, seus “pecaminosos” desenhos de anatomia humana
ainda são referência.
Jesse Owens, negro, oriundo de um Estados Unidos racista, foi recordista das olimpíadas
de 1936, derrubando por terra a falsa superioridade branca e, ainda mais, a superioridade
ariana, humilhando o sonho nazista.
Einstein, um dos maiores expoentes da Alemanha e da ciência mundial, era judeu.
Carmen Miranda era portuguesa e não brasileira, Charles Aznavour, maior ícone
da música francesa é armênio...
O que não faltam são exemplos de como a diferença é
importante para a humanidade, cabe ,então, ao ambiente escolar criar um espaço
onde a diversidade de pessoas e de ideias seja estimulada e possa florescer livremente,
estudando em profundidade os mecanismos autoritários e etnocêntricos,
escancarando sua pobreza ideológica, de visão de mundo e seus perversos
efeitos práticos como o preconceito, a discriminação e a repressão
que ainda perduram em nossos dias e em toda parte, justificando todo tipo de barbárie
contra seres humanos considerados “diferentes”.
Munidos, então, de reflexão crítica e ética, os jovens
podem se libertar do vírus da intolerância de dentro para fora.
Parafraseando Nelson Rodrigues, a unanimidade não é apenas burra,
ela é monótona, monocromática, enfadonha, para isto basta imaginar
um mundo onde todos fossem, pensassem e agissem igualmente...
A única igualdade que deve ser perseguida a todo custo é a de direitos,
pois somos todos iguais perante a lei e todos deveriam ser tratados assim, independentemente
de etnia, crenças, religião ou ideologias.
Assim, os franceses declararam Liberdade, igualdade e fraternidade, a ONU institui
os Direitos Humanos, Martin Luther King discursou “I have a dream...”,
John Lennon cantou “Imagine” e o filme adverte que devemos sempre estar
atentos ao vírus da intolerância...
E vivam as diferenças!