A ilusão da distância: Etnocentrismo e Autoritarismo no Brasil à luz do século XXI
Autor: Roberto Santos
Roberto Santos, Mestre em Gestão de Serviços pela Sorbonne-Paris I, Professor dos
cursos de Administração. Gestão Comercial e de Marketing das Faculdades Integradas
Rio Branco FRB. e-mail: robertos.m.s@gmail.com
Resumo
Este estudo, fez parte do 1º Interpares sobre o filme A Onda realizado nas FRB.
Seu objetivo foi analisar e refletir sobre como as pessoas se deixam seduzir pelo
etnocentrismo e o autoritarismo e sobre a ilusão disto estar distante da realidade
brasileira pretensamente tolerante e cordial, mas que na prática camufla uma realidade
macabra de preconceito e discriminação contra negros, mulheres e homossexuais, testemunhada
por estatísticas irrefutáveis e por agressões recentes cada vez mais corriqueiras.
-----------------------------------------------------------------------------------------------------
O holocausto foi um dos acontecimentos mais tenebrosos da história ocidental,
tanto pelo genocídio1 em si, quanto pelas suas sequelas e traumas
do pós-guerra na Europa e no mundo, testemunhado e imortalizado por depoimentos,
filmagens, fotos, arquivos, livros de história, filmes e movimentos de defesa
das vítimas das atrocidades nazistas, terminou se tornando, desta forma,
um marco referencial da falta de limites e das consequências da bestialidade
humana, circunscrevendo este tipo de situação a um passado aparentemente
remoto: a década de 40; num lugar aparentemente distante (do Brasil): a Alemanha;
personificada por um personagem histórico e doentio: Hitler; e, por fim,
com vítimas de um grupo bastante específico: os Judeus.
Os fatos sobre o holocausto são irrefutáveis, lastimáveis e,
portanto, não só podem, como devem servir de advertência mostrando
a qual nível de crueldade o ser humano pode chegar. Mas, ao mesmo tempo e
perigosamente, geram a “ilusão da distância”, ou seja,
servem como uma espécie de tranquilizador de consciências para todos
os que não foram contemporâneos ao holocausto; que não sejam
alemães; que tenham estudado o Fürher (líder em alemão)
apenas como um personagem histórico de um passado remoto e que, por fim,
não sejam judeus. Ou seja, a grande maioria da população ocidental
contemporânea, gerando o pernicioso senso comum de se tratar de um fato isolado
no tempo e no espaço.
Assim ao demonstrar repúdio (sincero ou não) ao holocausto, a civilização
ocidental segue seu rumo tranquila e despreocupada, condenando a crueldade dos nazistas,
certa de que uma situação como esta jamais voltará a acontecer,
como se, de fato, a humanidade já houvesse aprendido a lição...
Ledo engano que pode ser facilmente apontado ao se estudar minimamente fatos anteriores,
como o extermínio dos povos indígenas na colonização
da América ou mesmo posteriores ao Nazismo, como a bem mais recente guerra
na Bósnia na década de 90, durante a qual, novamente, volta a ocorrer
a odiosa limpeza étnica2, bem como outros fatos atualíssimos
como a ascensão dos partidos de extrema direita na Europa com sua postura
xenófoba e que abraçam ou flertam com um chamado “Neo-nazismo”,
que de novo (neo em latim) não tem nada e isso acontece, assustadoramente,
em países com forte lastro democrático como França e Inglaterra.
Assim o filme “A onda” (2008), irônica ou propositalmente alemão,
refilmagem do original americano de 1981, relata um caso verídico, resultado
de uma experiência realizada numa escola secundária em 1967 na Califórnia.
Ressalte-se: 22 anos após o advento nazista e fora da Alemanha, retomando
a temática não mais do Nazismo ou Nacional-socialismo (doutrina formulada
por Hitler que misturava dogmas e preconceitos a respeito da pretensa superioridade
da raça ariana (FERREIRA, 2004), imposta à Alemanha durante o período
de 1933 até o fim da 2ª guerra mundial), este sim um fato isolado no
tempo e espaço mas, sobretudo, revelador de como as pessoas se deixam seduzir
por mecanismos:
• etnocêntricos, quando os indivíduos de uma sociedade tendem
a julgar sua própria cultura superior às outras (DIAS, 2004);
• autoritários, quando se procura impor algo a todos os membros de um
grupo pela autoridade em detrimento da liberdade individual (FERREIRA, 2004); demonstrando
que líderes carismáticos conseguem influenciar grupos e manipulá-los,
e pior, mesmo quando se trata de pessoas aparentemente esclarecidas (jovens estudantes
no caso do filme), a ponto de fazê-los voltarem-se contra seus próprios
colegas, a partir do momento em que eles não se sujeitem ao que é
estabelecido autoritariamente como “correto” pelo grupo, fazendo com
que este grupo perca sua capacidade crítica e ética e aja como uma
turba intolerante, cega, furiosa, capaz de tudo para garantir que todos sejam iguais
e se comportem da mesma maneira, não importando os meios para tanto.
O filme tem o grande mérito de trazer de volta ao contexto contemporâneo,
e principalmente aos jovens, a necessidade de reflexão ética sobre
questões, nada distantes, que, pelo contrário, continuam a ser atualíssimas
e presentes em qualquer lugar do mundo, como o etnocentrismo, o autoritarismo, a
intolerância, o preconceito, a discriminação racial e, por fim,
a coerção física, psicológica e moral.
Resta saber qual seria a razão para que a discriminação, a
exclusão e a agressão a outrem possa ser tão facilmente aceitável?
Tudo começa com um mecanismo de cognição humana, a categorização,
que é inerente aos seres humanos, pois esta é uma das formas do cérebro
interpretar as informações do mundo externo comparando diferenças
e s imilaridades e, a partir daí, criar categorias para agrupá-las,
este mecanismo fundamental para o cérebro facilita o armazenamento e a recuperação
destas informações (VARGAS, 2005).
E esta mesma categorização também se aplica a pessoas, “processo
pelo qual indivíduos são agrupados em categorias, cujos membros são
depois percebidos como equivalentes em vários aspectos” (TAJFEL, H.,
1982; ROTHBART, M.; JOHN, P. O.,1985; HAMILTON, D. L., TROLIER, T. K., 1986; ROTHBART,
M.; LEWIS, S., 1988 apud VARGAS, 2004, p. 70).
O grande problema é que este mecanismo automático do cérebro
humano, quando acionado, parte do princípio que qualquer característica
comum: raça, sexo, credo, etc. entre pessoas (vale ressaltar totalmente distintas),
seja suficiente para agrupá-las e torná-las similares. Assim, quando
se lida com pessoas aparentemente diferentes do grupo a que se pertence, elas não
serão mais tratadas como indivíduos, mas sim como categorias: negros,
mulheres, judeus, homossexuais, orientais, gordos, etc.
E enquanto “simples categorias” lhes são atribuídos valores,
funções, hierarquias e qualidades generalizantes, exatamente como
se faz com objetos: canetas azuis são mais úteis, as coloridas são
infantis, as importadas são melhores, etc., gerando os aviltantes estereótipos.
A palavra estereótipo originalmente referia-se à matriz de impressão
usada em gráficas para reprodução de cópias (FERREIRA,
2004), daí seu empréstimo para o sentido psicossociológico,
significando a forma como a sociedade “imprime” ou generaliza as mesmas
características nos indivíduos de um grupo estereotipado.
O que é agravado, segundo Lippmann por 4 características comuns aos
estereótipos:
[...] simplificação, aquisições secundárias,
falsidade, e resistência à mudança. Desse modo, estereótipos
são mais simples que a realidade (seguidamente passíveis de serem
resumidos em apenas duas ou três sentenças), assimilados de mediadores
culturais ao invés de experiências diretas, falsos por natureza (uma
vez que estes estereótipos tentam afirmar que cada indivíduo de um
determinado grupo compartilha um conjunto de qualidades com os membros deste mesmo
grupo), e persistentes [...] (LIPPMANN, 1922 apud SADIQI, 2008, PP. 11 e 12)
Daí resulta uma generalização grosseira, deturpada e perigosa
da realidade, pois ao fazer isto:
• nega-se ao outro o direito à individualidade,
• procura-se fazer com que cada indivíduo corresponda ao estereótipo
de seu grupo, utilizando-se de argumentos e atitudes que o forcem a isto, processo
chamado de profecia auto-confirmatória3
• por fim, admite-se que um ser humano (enquanto categoria) possa ter mais
ou menos valor que outro.
• Os estereótipos são transmitidos e retransmitidos ao longo
do aprendizado social, sem qualquer reflexão ética, geração
após geração, perpetuando-se pelo processo de assimilação
dos membros do grupo que, por sua vez, continuarão a reproduzi-los, disseminando-os
por toda a sociedade até se tornarem paradigmas de julgamento e atitudes
em relação a aqueles que são “diferentes” do grupo
a que se pertence, tornando difícil revertê-los (DIAS, 2008).
A este respeito Chauí reflete:
[...] Somos formados pelos costumes de nossa sociedade, que nos educa para respeitarmos
e reproduzirmos os valores propostos por ela como bons e, portanto, como obrigações
e deveres. Dessa maneira, valores e maneiras parecem existir por si e em si mesmos,
parecem ser naturais e atemporais, fatos ou dados com os quais nos relacionamos
desde o nosso nascimento: somos recompensados quando os seguimos, punidos quando
os transgredimos” [...] (CHAUÍ, 2003, p. 311)
Às pessoas, então, categorizadas e estereotipadas, dá-se um
tratamento diferenciado e condizente com estes valores, ou seja, o preconceito e
a discriminação.
Apesar de intimamente relacionados, tratam-se de objetos distintos: o preconceito
numa abordagem abrangente4 se refere ao campo abstrato, por se tratar
de uma idéia preconcebida sobre alguém, que conduz a um julgamento
sem possibilidade defesa (FERREIRA, 2004), enquanto que a discriminação
se refere à materialização do preconceito nas relações
sociais, definida pela Organização das Nações Unidas
- ONU por meio das Convenções Internacionais sobre a Eliminação
de Todas as Formas de Discriminação Racial em 1965 (ratificada pelo
Brasil em 1968) e contra a Mulher em 1979 (ratificada pelo Brasil em 1984) como
sendo respectivamente:
• qualquer distinção, exclusão, restrição
ou preferência fundadas na raça, cor, descendência ou origem
nacional ou étnica que tenha por fim ou efeito anular ou comprometer o reconhecimento,
o gozo ou o exercício, em igualdade de condições, dos direitos
humanos e das liberdades fundamentais nos domínios político, econômico,
social, cultural ou em qualquer outro domínio da vida pública. (ONU,
1965)
• toda distinção, exclusão ou restrição
baseada no sexo e que tenha por objeto ou resultado prejudicar ou anular o reconhecimento,
gozo ou exercício pela mulher, independentemente de seu estado civil, com
base na igualdade do homem e da mulher, dos direitos humanos e liberdades fundamentais
nos campos político, econômico, social, cultural e civil ou em qualquer
outro campo”. (ONU, 1979)
A partir daqui, pode-se compreender como os mecanismos de categorização,
estereótipos, preconceito e discriminação são importantes
para que se entenda de onde vêm e como eles se juntam para propiciar um clima
adequado a manifestações etnocêntricas, sexistas e racistas
(atitudes de superioridade ou agressividade em relação a indivíduos,
considerados racialmente diferentes (FERREIRA, 2004)) e autoritárias acompanhadas
de coerção em todas as suas formas (física, psicológica
ou moral), sendo que a única forma de reverter tal quadro é intensiva
e ostensivamente estimular a reflexão ética sobre valores e atitudes
que norteiam o comportamento das pessoas, pois, seja no campo das idéias,
seja na prática o que se vê é a recorrência, a banalização
e a conivência com tais práticas sob formas dissimuladas ou contundentes.
Esta discussão que ainda parece distante (do Brasil), posto que, quando se
é brasileiro, historicamente gerado no ventre das índias liberais5,
que posteriormente teve o paladar e o coração adoçados pelos
quitutes e seios das escravas negras (FREYRE, 2006) e que, por fim, recebeu de braços
abertos inúmeras levas de imigrantes de todos os continentes, resultou num
povo amalgamado e, portanto, tolerante, cordial e pacífico, ou seja, um povo
realmente distante da possibilidade de ser etnocêntrico, racista e autoritário
como foram os nazistas, estes muito distantes, ou até mesmos dos jovens californianos
que deram origem ao filme, estes já não tão distantes. Apesar
da obviedade desta falácia histórica (RIBEIRO, 1995), persiste uma
ampla aceitação pelo senso comum, de que o Brasil é um país
de tolerância racial, onde todos são igualmente tratados sem qualquer
discriminação.
Assim o preconceito, a discriminação (atualmente quase sempre velados
ou camuflados pelo humor, vide figura 1) e o autoritarismo, este último,
típico de nosso berço patriarcal, eurocêntrico e machista (RIBEIRO,
1995; MOTTA; CALDAS, 1997), onde os Senhores de Engenho detinham toda e qualquer
propriedade, além de ter poder de vida e morte sobre tudo e sobre todos os
seus, impondo ostensiva e autoritariamente seus valores sobre os demais membros
da sociedade (RIBEIRO, 1995), puderam se esconder atrás de uma pseudo “cordialidade”
e de uma pseudo “pacífica convivência” (RIBEIRO, 1995)
culminando na falsa crença de que existe efetivamente no Brasil uma democracia
racial, onde todos os cidadãos seriam iguais perante a lei conforme reza
o artigo primeiro da Constituição Brasileira (BRASIL, 1988).
Figura 1 – Mapa do Brasil segundo os paulistas (autor e fonte desconhecidos)
Os únicos “pequenos detalhes” que insistem em provar justamente
o contrário disto são a ampla aceitação do etnocentrismo
e do racismo em piadas sobre negros, mulheres, homossexuais, nordestinos, etc. que
teoricamente são inocentes “brincadeirinhas”, mas que atuam no
campo das ideias, e na prática e, o mais grave, as estatísticas mostram
o quão discriminados eles são no Brasil.
Ao descrever a situação dos negros no Brasil, Roberto Mangabeira Unger,
ex- ministro de Assuntos Estratégicos do Brasil (10/2007 a 06/2009) em artigo
da Folha de SP (2009) declara: “A desigualdade dos acessos aos meios de qualificação
é tão radical que permite à discriminação, quase
sempre evasiva e ambivalente entre nós, esconder-se atrás do disfarce
do tratamento igual”.
Desta maneira, 122 anos após a abolição da escravatura, os
negros sofrem sob o peso do estereótipo de que eles seriam inferiores aos
brancos e, como não conseguem se qualificar, são as maiores vítimas
do desemprego ou só conseguem os piores postos de trabalho, consequentemente,
ganham pouco e, em média, a metade do que ganha um branco no mesmo cargo,
compõem a maior parte da população pobre do Brasil, ficando
assim mais expostos à violência, dependem de Educação,
Saúde e Segurança Públicas, não sendo de se espantar
que vivam menos do que os brancos. (IPEA e UNIFEM, 2004, 2005, 2008; IPEA, 2008;
VENTUROLI, 2009).
Já as mulheres, outra “categoria” bastante discriminada, convivem
com uma dupla jornada de trabalho, profissional e doméstica, sendo esta última
de seu exclusivo dever graças a uma moral machista, que quer as mulheres
submissas aos homens e a seu estereótipo que a reduz a esposa e mãe.
O resultado assustador é que a cada 15 segundos uma mulher é agredida,
a cada ano são mais de 2 milhões de mulheres vitimadas, sendo que
a violência doméstica é a principal causa de morte e de deficiências
entre mulheres de 16 a 44 anos matando mais do que câncer e acidentes de trânsito
e, para finalizar, como são consideradas inferiores aos homens, no mercado
de trabalho recebem em média 34% menos do que eles em cargos iguais (IPEA
e UNIFEM, 2004, 2005, 2008; IBOPE e Instituto Patrícia Galvão, 2004),
ainda que segundo a Organização Internacional do Trabalho - OIT (1990
apud CORTELLA, 2008) do total de horas trabalhadas no mundo dois terços sejam
realizadas por mulheres, ou seja, o dobro dos homens.
Como não poderia deixar de ser numa sociedade predominantemente cristã
e machista, ainda há os homossexuais, esta “categoria” estereotipada
como aberrações da natureza por teorias biológicas, tão
falsas (MEC e UNESCO, 2009) quanto a pseudo superioridade ariana, e fadados ao inferno
pelas religiões.
Por sinal, inferno que para eles começa bem cedo com a prática de
chacotas e agressões nas escolas, não sem razão a taxa de suicídio
entre jovens gays chega a ser até 8 vezes maior que a média brasileira
(RIBEIRO, 2002), posteriormente a discriminação acompanha-los-á
em todas as suas relações sociais e profissionais, conforme demonstrado
por uma Pesquisa da Fundação Perseu Abramo em 2009 (apud AGGEGE, 2009)
revelando que mais de 70% dos brasileiros considera ter forte preconceito contra
homossexuais, assim a discriminação parte de todas as faixas de escolaridade,
de renda, de todas regiões do país e de diferentes religiões,
além disto um crime de ódio (aquele motivado exclusivamente por preconceito)
homossexual acontece a cada três dias, gerando uma média de 100 homicídios
anuais e que vem crescendo, tornando o Brasil, em 2008, campeão mundial de
crimes homofóbicos com 190 homicídios (TALENTO, 2009), ressaltando
que estes homicídios geralmente são praticados com requintes de crueldade
(ADITAL, 2006), ou seja, dezenas de tiros ou facadas, uso de múltiplas armas,
tortura prévia, etc.
Se ainda de alguma forma persiste a ideia da distância espaço-temporal
ou de resistência aos fatos sobre os dissimulados e perversos efeitos da discriminação
racial, vale lembrar dois eventos recentes ocorridos em ambientes universitários
em 2009 e em 2010, na cidade de São Paulo, a exemplo do que ocorreu no filme
“A Onda”.
Ambas situações de rompantes etnocêntricos e autoritários
em pleno meio universitário, onde teoricamente deveria reinar uma mentalidade
jovial, mais aberta, questionadora, igualitária, ética, tolerante
e democrática, mas ao contrário reinou a discriminação
e seu poder assustador de coerção.
Assim a aluna Geisy Arruda, em outubro de 2009 foi moralmente linchada na UNIBAN,
por portar um vestido “curto”, a ponto de sair de lá escoltada
pela polícia e ser expulsa pela faculdade, gerando ampla repercussão
na mídia. (GOULART, 2010)
E, em abril de 2010, com uma repercussão menor, um jornal dos alunos da Faculdade
de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo - USP
discorria sobre a proliferação de gays em seu campus com medo de que
se tornasse igual à Escola de Comunicação e Artes da USP (onde
supostamente haveria mais gays) oferecendo um convite gratuito para uma “festa
brega” aos estudantes do curso que, em troca, jogassem fezes em homossexuais.
(CARDILLI; KLEBER, 2010)
Um mínimo de reflexão ética permitiria entrever que os motivos
destes eventos não escondem em absoluto a hiper–valorização
da “categoria masculina” em detrimento das mulheres e dos homossexuais,
evidenciando o androcentrismo, tendência a privilegiar o ponto de vista masculino
(FERREIRA, 2004) e seus laços com um “autoritarismo disciplinador”
capaz de fazer todos se submeterem à sua vontade...
Desta forma, políticas afirmativas definidas como:
as medidas especiais e temporárias, tomadas ou determinadas pelo Estado e/ou
pela iniciativa privada, espontânea ou compulsoriamente, com o objetivo de
eliminar as desigualdades historicamente acumuladas, garantindo a igualdade de oportunidades
e tratamento, bem como compensar perdas provocadas pela discriminação
e marginalização de grupos sociais decorrentes de motivos raciais,
étnicos, religiosos, de gênero e outros, até que se atinja a
igualdade de competitividade (GTI, 1997 apud SOUZA NETTO, 2005)
Tais como as cotas para negros em universidades, leis contra a agressão6
ou pagamento de salários menores7 às mulheres, projetos
de lei a favor da criminalização da homofobia8 , são
excelentes e louváveis iniciativas do Estado que não pode e não
deve fechar os olhos diante de tamanhas disparidades, mas sozinhas surtem pouco
efeito, se os indivíduos fecharem seus próprios olhos para a realidade
macabra da discriminação, da intolerância às diferenças,
do autoritarismo e seus efeitos perversos.
Pode-se, então, concluir que o etnocentrismo e o autoritarismo, sob diferentes
formas ainda fazem partem do cotidiano, aqui e agora, muito mais perto do que o
brasileiro gostaria, observando a figura 1 e confrontando-a com os fatos levantados,
têm-se mais motivos para chorar do que para rir, porque uma vez, discriminadas,
“disciplinadas” ou eliminadas “categorias ou raças”
que são consideradas inicialmente inferiores pelos grupos ditos “superiores”,
nunca se sabe quem será a próxima vítima: gordos, orientais,
sulistas, etc., afinal haverá sempre uma justificativa estapafúrdia
para discriminar, “disciplinar” ou eliminar alguém “diferente”,
se o questionamento ético calar.
Notas
1 - Segundo a Organização das Nações Unidas
- ONU em sua Convenção para a prevenção e a repressão
do crime de genocídio, de 1948, entende-se por genocídio qualquer
ato cometido com a intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo
nacional, étnico, racial ou religioso. (ONU, 1948)
2 - Termo amplamente utilizado desde os anos 90, para designar a remoção
ou eliminação deliberadamente planejada de determinados grupos étnicos
numa região, pelo uso da força ou intimidação. O genocídio
é uma de suas formas. (ENCICLOPÉDIA BRITÂNICA on line, 2010).
3 - Para se aprofundar sobre este mecanismo ler capítulo 3 de Vargas
(2005)
4 - Posto que Sociologia e Psicologia tratam do tema de maneira distinta.
Para se aprofundar sobre a dinâmica e a natureza do preconceito ler capítulo
2 de MEC e UNESCO, 2009
5 - No início da colonização, mulheres portuguesas
eram raras, assim a população brasileira começa no ventre das
índias. Para se aprofundar ler Bueno, 1997
6 - Lei federal Nº 11.340, de 7 de agosto de 2006,conhecida como Lei
Maria da Penha cria mecanismos para coibir a violência doméstica e
familiar contra a mulher.
7 - Projeto de Lei 6393/09, do deputado Marçal Filho (PMDB-MS),
pune os empregadores que pagarem salários menores às mulheres do que
aos homens ocupantes da mesma função (http://www2.camara.gov.br/agencia/noticias/TRABALHO-E-PREVIDENCIA/144726-DISCRIMINACAO-SALARIAL-CONTRA-MULHERES-PODERA-SER-PUNIDA-COM-MULTA.html)
8 - Projeto de Lei 122 de 2006, da deputada Iara Bernardi (PT-SC), que
torna a homofobia crime como já acontece com o racismo (http://www.senado.gov.br/atividade/materia/detalhes.asp?p_cod_mate=79604
Referências Bibliográficas
A ONDA (The wave). GRASSHOF, Alex. EUA: TAT Communications Company e Tandem Productions,
1981
A ONDA (The wave). GANSEL, Dennis. Alemanha: Rat Pack Filmproduktion GmbH, Constantin
Film Produktion e B.A. Produktion, 2008
ADITAL - Agência de Informação Frei Tito para América
Latina. Vítimas do ódio. Notícias da América Latina
e Caribe, 13/06/2006. Disponível em: <http://www.adital.com. br/site/noticia2.asp?lang=PT&cod=22993>.
Acesso em: <05/05/2009>.
AGGEGE, Soraya. Pesquisa: 99% têm preconceito contra gays. RJ, O Globo, 08/02/2009
BUENO, Eduardo. História do Brasil. RS: Zero Hora e Publifolha, 1997
BRASIL, Constituição (1988). Constituição da República
Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado,1988.
CARDILLI, Juliana e KLEBER, Tomaz. Jornal de alunos de farmácia da USP pede
para jogar fezes em gays. Portal G1. 23/04/2010. Disponível em: <http://g1.globo.com/sao-paulo/
noticia/2010/04/jornal-de-alunos-de-farmacia-da-usp-pede-para-jogar-fezes-em-gays.html>.
Acesso em: <10/05/2010>.
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia,12ª ed. São Paulo:
Ática, 2002
CORTELLA, M.S. A Escola e o Conhecimento: fundamentos epistemológicos e políticos.
12ª. Ed. SP: Cortez, 2008.
Diário de S. Paulo. Censo na USP revela que negros representam só
1,3% dos alunos. SP, Diário de S. Paulo, 07/03/2003
DIAS, Reinaldo. Sociologia & Administração. SP: Alínea,
2004
FERREIRA, Aurélio B. de Hollanda. Novo Dicionário da Língua
Portuguesa. 3. ed. Curitiba: Positivo, 2004
FREYRE, Gilberto. Casa grande & senzala: formação da família
brasileira sob o regime de economia patriarcal. 51ª Ed. SP: Global, 2006
______. Açúcar. 3ª Ed. SP: Cia das Letras, 1997
Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para as Mulheres –
UNIFEM http://www.unifem.org.br/
GOULART, Luiza . Aluna hostilizada na Uniban diz que expulsão é absurda.
SP: Folha on line. 07/11/2009. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/folha/educacao/
ult305u649246.shtml>. Acesso em:<10/05/2010>.
GRANER, Fábio. Brasil cai 9 posições e atinge 82º lugar
no ranking de desigualdade entre homens e mulheres; Islândia é o menos
desigual. UOL Notícias. 27/10/2009. Disponível em: <http:// noticias.bol.uol.com.br/internacional/2009/10/27/islandia-e-o-pais-com-maior-igualdade-entre-homens-e-mulheres-iemen-e-o-mais-desigual.jhtm>.
Acesso em:<10/10/2009>.
IBOPE - Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística
e Instituto Patrícia Galvão. Violência contra as mulheres. SP,
2004.
IPEA - Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Desigualdades raciais, racismo
e políticas públicas: 120 anos após a abolição.
Brasília, 2008.
IPEA - Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e UNIFEM - Fundo de Desenvolvimento
das Nações Unidas para a Mulher. Retrato das desigualdades de gênero
e raça. Brasília, 2004; 2005; 2008.
LIPPMANN, W. Opinião pública. Tradução Jaques A. Wainberg.
RJ: Vozes, 2008
Luta Fenajufe - Na “semana” da mulher, IBGE mostra que trabalhadoras
estudam mais e ganham menos. Disponível em: <http://www.sintrajufepi.org.br/noticia.asp?id=1041>,
11/3/2010. Acesso em: <10/04/2010>.
MEC – Ministério da Educação e Cultura e UNESCO - United
Nation Educational, Scientific and Cultural Organization. Diversidade sexual na
educação: problematizações sobre homofobia nas escolas.
Brasília, 2009
MOTTA, Fernando P & CALDAS, Miguel P. Cultura organizacional e cultura brasileira.
SP: Atlas, 1997.
MÜZELL, Lúcia. Pró-supremacia branca, extrema-direita britânica
vive ascensão. Notícias Terra. 15/04/2010. Disponível em: <http://noticias.terra.com.br/mundo/
noticias/0,,OI4382855-EI8142,00-Prosupremacia+branca+ extremadireita+britanica+vive+ascensao.html>.
Acesso em: <1/8/2010>.
ONU - Organização das Nações Unidas. Convenção
para a prevenção e a repressão do crime de genocídio.
1948. Disponível em: <http://www.dhnet.org.br/direitos/sip/onu/genocidio/
conv48.htm>. Acesso em: <05/08/2010>.
______. Convenção Internacional sobre a Eliminação de
Todas as Formas de Discriminação Racial, 1965. Disponível em:
<http:// www.onu-brasil.org.br/doc_cs.php> Acesso em: <10/08/2010>
______. Convenção Internacional sobre a Eliminação de
Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher, 1979. Disponível
em: <http://www.unifem.org.br/005/00502001.asp?ttCD_ CHAVE=8466> Acesso em:
<10/08/2010>
RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: evolução e o sentido do Brasil.
São Paulo: Companhia das Letras, 1995
RIBEIRO, Deco. Genocídio gay. E-jovem. 2002. Disponível em: <http://www.e-jovem.com/news00.html>.
Acesso em:<10/08/2010>
SADIQI, Fátima. Estereótipos e mulheres na cultura marroquina. Cadernos
Pagu, nº.30: Campinas, 2008
Secretaria de Políticas para as Mulheres – SPM http://www.sepm. gov.br/
SOUZA NETTO, Flávia Emanuelle de. A Convenção Internacional
Sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação
Racial e o Ordenamento Jurídico Brasileiro. Disponível em: <http://
www1.jus.com.br/doutrina/text.asp?id=6488>. Acesso em: <05/08/2010>.
TALENTO, Biaggio. Brasil é o campeão mundial de crimes homofóbicos.
BA, Jornal a Tarde. 14/04/2009
Terra Notícias. IBGE: 69,4% dos analfabetos do país são negros
& Brancos ganham 40% mais do que negros, diz IBGE. 28/10/2007. Disponível
em <http://noticias.terra.com.br/ brasil/interna/0,,OI1947001-EI10361,00.html>.
Acesso em: <15/05/2008>
UNGER, Roberto Mangabeira. Fazer a abolição de novo. SP: Folha de
São Paulo, 13/05/2008
VARGAS, Ricardo. Os meios justificam os fins. SP: Pearson Prentice Hall, 2005.
VENTUROLI, Thereza. Mais de um século de discriminação. ou
Guia do Estudante: Atualidades e Vestibular, SP: Abril, 2009