Escolas de Port Royal: ressonâncias de um passado
Autor: Anelise Maria Muller Carvalho
Anelise Maria Muller Carvalo, Graduada em história, USP Mestre em História pela
PUC-SP e Professora no curso Pedagogia das Faculdades Integradas Rio Branco.
Resumo
Neste texto o objetivo é discutir o projeto das escolas de Port Royal, apresentado
como um projeto educativo de pouca duração, mas que teve um significado histórico
memorável. Discute-se também seus fundamentos norteadores nos aspectos pedagógicos
e metodológicos.
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“A memória não é um depósito de lembranças.
É uma atividade e uma procura de significados do passado”. (Ecléia Bosi, 1995.)
Na Europa do século XVII, as antigas instituições educativas:
família, escola e igreja se renovaram face às novas necessidades da
sociedade que se modernizava nos moldes capitalistas. O próprio pensamento
educativo apresentou novos enfoques, salientando a necessidade de uma formação
moral e racional cada vez mais de caráter civil, formando sujeitos sociais
que pudessem vivenciar relações pessoais e sociais, mais secularizadas
e laicas. (CAMBI, 1999, p. 279-282).
Nesse sentido vale acompanhar, sobretudo a configuração das escolas,
que sob a designação de colégios, estruturam-se em classes
organizadas por idade e definem com precisão seus programas e métodos
de ensino. Os colégios jesuítas já se haviam disseminado em
várias regiões da Europa, e mesmo no Brasil Colonial, tornando-se
uma das instituições escolares de maior reconhecimento no campo educativo
(PEETERS; COOMAN, 1936).
Num esforço de se contrapor a essa predominância da pedagogia jesuítica,
surgem outras experiências educativas, apresentando um outro olhar pedagógico,
uma outra estruturação de escola, como por exemplo as escolas de Port
Royal.
Mesmo tendo em vista que as escolas de Port Royal, ou “Pequenas Escolas”
como também eram conhecidas, não se configuraram como um projeto educativo
que atravessou séculos e nem tiveram grande visibilidade documental, elas
apresentaram uma pedagogia muito própria e diferenciada em relação
aos processos de escolarização existentes, e que apesar de terem uma
duração breve, ficaram famosas e merecem estudos que discutam sua
historicidade.
Elas surgem em 1637, criadas por um abade de nome Saint-Cyran (1581-1643), na abadia
de Port Royal, perto de Paris. A designação de “pequenas escolas”
justifica-se devido ao pequeno número de alunos por classe, ou seja, 5 a
6 alunos, para garantir um bom acompanhamento desses por seus professores. Os educadores
de Port Royal seguiam os princípios do Jansenismo1. Eles defendiam
que a educação devia intervir na natureza humana (considerada naturalmente
inclinada para o mal), desenvolvendo juízos fundamentados no uso da razão,
possibilitando escolhas e práticas sociais corretas do ponto de vista moral
e religioso. As seguintes considerações sobre esse projeto educativo
são bastante expressivas:
Trata-se de escolas para poucos, cujo objetivo principal é intervir sobre
crianças para prevenir e corrigir sua inclinação para o mal.
A natureza humana, dominada pelo pecado, segundo a doutrina jansenista, e própria
predestinação não devem impedir o educador de “agir como
se tudo dependesse de nós. A criança é realmente “possuída
pelo diabo antes mesmo de nascer”, mas justamente por isso é necessário
ajudá-la e guiá-la no seu crescimento. A “redenção
do homem é possível se houver uma potencialização da
racionalidade e das suas capacidades de julgamento (CAMBI, 1999, p. 294)
Portanto, o objetivo dessas escolas era desenvolver posturas de julgamento, com
racionalidades proporcionais à maturidade das crianças. Além
disso, também havia a intenção de formar lideranças
bem preparadas para desempenharem papéis sociais adequados para a Igreja
e para o Estado. Partindo dessas premissas, o ensino em Port Royal se desenvolveu
e percorreu um caminho educativo com preocupações bem distintas e
diferenciadas, se comparado ao de outras propostas educativas vigentes naquela época,
como por exemplo, a já referenciada educação dos jesuítas.
Em Port Royal defendia-se que as crianças precisavam de amor, piedade, afeto
e simpatia para superarem sua “inclinação natural para o mal”.
Havia um regulamento para as crianças no qual constava
É preciso vigiar as crianças com cuidado, e jamais deixá-las
sozinhas em nenhum lugar, estejam elas sãs ou doentes. (Mas) é preciso
que essa vigilância seja feita com doçura, e uma certa confiança,
que faça a criança pensar que e amada, e que os adultos só
estão a seu lado pelo prazer de sua companhia. Isso faz com que elas amem
essa vigilância em lugar de temê-la. (ARIÉS, 1981, p.142)
O abade Saint-Cyran, fundador das pequenas escolas, tinha a infância em alta
consideração e conclamava os deveres dos colegas educadores para com
as crianças considerando que Jesus
não permitiu que se impedissem as crianças de se aproximar dele, que
as beijava e as abençoava, (recomendando) que não as desprezássemos
ou negligenciássemos, e que, finalmente, falou delas em termos tão
elogiosos e surpreendentes a ponto de atordoar aqueles que escandalizam os pequeninos...
(ARIÉS, 1981, p.140)
Esse olhar para a infância, conforme aponta Cambi (1999), orientou os mestres
de Port Royal a desenvolverem um projeto pedagógico muito específico,
um novo caminho educativo, no qual se ensinavam inicialmente Lógica e Gramática
a partir da língua nacional (materna, ou seja, o francês), e só
em classes mais adiantadas era ensinado o Latim. A Lógica contribuía
para desenvolver a intuição, o julgamento e a ordenação
a partir do raciocínio. A Gramática devia favorecer o desenvolvimento
da linguagem.
No ensino da linguagem partiam dos autores e seus textos, e não das regras
gramaticais. Refutavam o método alfabético, que parte das letras,
para as sílabas, para depois chegar às palavras. Nessas escolas o
ensino se desenvolvia a partir do método fonético no qual se ensinava
preliminarmente as vogais e ditongos, para depois ensinar as consoantes combinadas
com as vogais. Combatiam o verbalismo (desenvolvido pela Retórica Medieval),
além disso, consideravam a memorização e a simples erudição
como práticas pedagógicas vazias de significado, pelas quais não
valia a pena despender esforços educativos.
Cada aluno era confiado a um mestre que o acompanhava em seu processo de aprendizagem.
Entre seus alunos destacam-se os famosos La Fontaine (autor de fábulas) e
o filósofo Blaise Pascal.
Em relação aos professores, vale dizer, que eram educadores bem formados
com conhecimentos aprofundados em Literatura e Filosofia, uma vez que se baseavam
em autores clássicos, e faziam traduções de seus textos para
a língua nacional. Os mestres produziram obras pedagógicas nas quais
registraram as linhas educativas e didáticas das escolas de Port Royal, como
por exemplo, Novo método para o ensino de Latim, do grego, do italiano e
da geometria de Claude Lancelot e Memórias sobre o regulamento dos estudos
das letras humanas e a Lógica ou arte de pensar de Pierre Nicole. (CAMBI,
1999, p.293).
Cabia aos mestres estimular o empenho e esforço de seus alunos, mas também,
valorizar a modéstia e autocontrole, não estimulando a competição.
Usavam mapas e ilustrações em suas aulas, demonstrando preocupações
metodológicas para ensinar e aprender (CAMBI, 1999, p.294).
Nos textos brasileiros de História da Educação há poucas
referências sobre as “pequenas escolas” de Port Royal, dificultando
pesquisas de alunos e alunas do curso de Pedagogia. Neste texto, as informações
apresentadas visam trazer conhecimentos sobre esse projeto educativo, tão
distante de nós em termos de tempo e lugar, se considerarmos a época
de sua existência. Na miragem desse projeto educativo, convém ter presente
que aquelas escolas situavam-se num universo social do século XVII e veiculavam
as visões de mundo, de homem e de sociedade daquele contexto. Dessa forma,
ainda que puderam gerar posturas e posições comportamentais inovadoras
e críticas, elas explicitaram representações e significados
dos valores morais e religiosos dominantes. Contudo, na medida em que foram muito
estimulados a usar o raciocínio lógico para introjetar os conhecimentos
aprendidos, os educandos de Port Royal podiam ter julgamentos e escolhas para enfrentar
o dogmatismo religioso de diferentes linhas que se enfrentavam tão fortemente
desde o período das reformas protestante e católica.
Vale considerar que os educadores de Port Royal apresentaram um projeto educativo
inovador, questionando e mudando aspectos do ensino tradicional dominante, sendo
que alguns desses aspectos até hoje se mantém em alguns ambientes
de ensino, como por exemplo: mera memorização de conteúdos,
autoritarismo, homogeneidade dos alunos, entre tantos outros – fato que vem
mostrar como aqueles educadores das “pequenas Escolas” eram avançados
em suas propostas e caminhos pedagógicos.
Outro aspecto significativo do projeto é quanto ao carinho e afeto que os
educadores deviam dispensar aos seus alunos, estabelecendo relações
educativas de caráter mais humano. E diferentemente dos educadores jesuítas,
não centraram atenção em uma disciplina rígida, onde
também tem lugar comportamentos de repressão. Havia vigilância
sobre os alunos, mas ela era marcada pelo afeto. O tratamento bem individualizado
dos alunos permitia que o professor, conhecendo-os em suas potencialidades, pudesse
ser de fato um orientador do processo de ensino/aprendizagem, e desenvolvesse um
processo educativo altamente significativo para que fossem pessoas de personalidade
e caráter consistentes desenvolvidos a partir de raciocínios fundamentados
na Lógica. Nesse sentido, o famoso educador e filósofo Anísio
Teixeira (APUD PEG, 2001) ensina
A medida que formos mais livres, que abrangermos em nosso coração
e em nossa inteligência mais coisas, que ganharmos critérios mais fixos
de compreensão, nessa medida nos sentiremos maiores e mais felizes. A finalidade
da educação se confunde com a finalidade da vida.
Por fim, cabe ressaltar que conhecer e considerar a história das “Pequenas
Escolas de Port Royal” significa também perpetuar sua memória,
ouvindo sua ressonância, percebendo que essa experiência de ensino/aprendizagem
tem um grande significado de renovação pedagógica.
Assim, contemplar os aspectos pedagógicos inovadores de Port Royal (apontados
ao longo deste texto) serve para inspirar práticas educativas atuais para
educadores comprometidos, para aos quais a educação é um caminho
a ser percorrido para transformar o mundo. Também podemos considerar como
aspectos valiosos dessa contribuição que as pequenas escolas de Port
Royal desenvolveram um processo educativo mais aberto e humano, expressando sentimentos
e opiniões com mais liberdade, estimulando que vidas desabrochassem com um
sentido de humanidade mais pleno.
Nesse estudo e conhecimento das escolas de Port Royal devemos ter presente que ao
situar-nos em diferentes contextos históricos analisando e interpretando
as experiências escolares vivenciadas por educadores e educandos, podemos
melhor compreender como essas experiências pedagógicas podem contribuir
para mudanças culturais na sociedade, pois em qualquer tempo ou lugar
a educação é uma chave. Chave que abre a possibilidade de se
transformar o homem anônimo, sem rosto, naquele que sabe que pode escolher,
que é sujeito participante de sua reflexão, da reflexão do
mundo e da sua própria história, assumindo a responsabilidade dos
seus atos e das mudanças que fizer acontecer. (SERRÃO,1999, p.23)
Portanto, os conhecimentos sobre a história de Port Royal justificam-se quando
se considera a educação como uma chave que pode modificar ou alterar
a realidade, aglutinando forças educativas, provocando rupturas e instaurando
o que ser quer como novo, ou seja, o desejado e sonhado. As escolas Port Royal apesar
da designação de pequenas escolas, configuram-se como “grandes
escolas” pelo significado importante que têm na memória histórica
educativa.
Notas
1 - Os princípios do Jansenismo baseiam-se nas idéias de Jansênio (1585-1638), bispo e teólogo holandês que considera que o ser humano tem uma inclinação natural
para o mal, sendo que a educação pode revertir esta condição humana (LISA- Grande dicionário, 1981).
Referências Bibliográficas
ARIÈS, Philippe. História Social da Criança e da família.
Rio de Janeiro, Guanabara. Koogan, 1981.
CAMBI, Franco. História da Pedagogia. São Paulo, UNESP, 1999.
Grande Dicionário Enciclopédico da Língua Portuguesa
– Histórico. São Paulo, Lisa- Livros Irradiantes, 1981.
PEC – Formação Universitária. v1. Governo do Estado de
São Paulo- Secretaria da
Educação/ USP/UNESP/PUC-SP, 2001.
PEETERS, Francisca e COOMAN, Maria Augusta. Pequena História
da Educação. São Paulo, Melhoramentos, 1936.
SERRÃO, Margarida e Maria C. Baleeiro. Aprendendo a ser e a conviver.
São Paulo, FTD, 1999.