Ciranda, cirandinha – prazer de brincar e de ser feliz
Autor: Anelise Maria Muller Carvalho
Graduada em história, USP Mestre em História pela PUC-SP e Professora no curso de
Pedagogia das Faculdades Integradas Rio Branco.
Resumo
Neste texto, o objetivo é discutir que o brincar implica em escolher objetos (brinquedos)
e comportamentos (brincadeiras) repletos de significados, mas que também interligam
os mundos infantil e dos adultos. É importante ter presente que os brinquedos e
brincadeiras são analisados como produtos culturais que se situam na cultura infantil.
Para os estudiosos do tema brincar/brincadeiras e também para os educadores, muitas
indagações se colocam: O que são os brinquedos, e as brincadeiras? Por que as crianças
brincam? Como brincam? Qual o papel dos brinquedos nos processos educativos?
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“Nada pior do que uma casa de educação em que não se brinque” Marcelino Champagnat
- (1789-1840).
Para nós educadores, refletir sobre brinquedos e brincadeiras remete a considerar
dois caminhos de experiências. O primeiro, das experiências do brincar de nossa
própria infância, e o segundo, da utilização do brincar nas práticas educativas
dos ambientes escolares nos processos de ensino/aprendizagem.
Lembrar das experiências de brincar permite reencontrar lugares e momentos de nossa
infância, pois, conforme nos inspira Walter Benjamin, podemos revisitá-los evocando
sentimentos e memórias nostálgicas, mas também nos impulsiona a situar-nos em reflexões
sobre o significado dos brinquedos e brincadeiras nas práticas pedagógicas para
que sejam criativas e prazerosas. Em seus escritos sobre crianças e sua própria
infância Walter Benjamin em diversos textos1 recupera a cultura de sua vida familiar,
e também “em certo sentido, a maneira de ver da criança, a sensibilidade e os valores
dela...” (BOLLE, p.64) salientando a cultura infantil na qual se situam os brinquedos
e brincadeiras.
Portanto, considerando estas observações acima, vale salientar que o brincar implica
em fazer escolhas frente a uma diversidade de objetos (brinquedos) e de comportamentos
(brincadeiras) que são repletos de significados, mas que também interligam os mundos
infantil e dos adultos. Ou em outras palavras, interligam a cultura infantil à cultura
dos adultos. Assim, centrando numa perspectiva antropológica, é importante ter presente
que os brinquedos e brincadeiras sejam analisados como produtos culturais que se
situam na cultura infantil. Para os estudiosos do tema brincar / brincadeiras e
também para os educadores, muitas indagações se colocam: O que são os brinquedos
e as brincadeiras ? Por que as crianças brincam? Como brincam? Qual o papel dos
brinquedos nos processos educativos?
1. Brinquedos/brincadeiras: considerações conceituais
Os brinquedos estão presentes na História e podem ser situados em diferentes tempos
e lugares. Revelam uma cultura porque apresentam significações produzidas pelos
que brincam, expressando situações da vida cotidiana, e assim permitem a compreensão
funcional da cultura na qual se inserem. Eles são objetos de exploração e descoberta
de sentimento afetivo, de reconhecimento das diferenças de gênero, de gosto e preferências.
Conforme nos informa Wajskop (1990), na Antiga Grécia, Platão já sugere que o estudar
seja prazeroso, a partir da experiência do brincar. Destaca que no seu tempo ofereciam-se
doces em formas de letras e números para as crianças em processo de aprendizagem.
Sendo os brinquedos e brincadeiras produtos culturais, são também
suportes de representações, pois podem ganhar novos significados,
dados pelas crianças, na medida em que desenvolvem suas brincadeiras. Da
mesma forma que as obras de arte, os brinquedos contém muita riqueza simbólica,
e contribuem para estabelecer uma relação pensamento-ação.
Não são os adultos que dão sentido aos brinquedos “sejam
pedagogos, fabricantes ou literatos – mas as próprias crianças.”
(BENJAMIN, p.65). Por exemplo, várias bonecas podem ser consideradas numa
relação familiar de mãe e filhas ou irmãs e primas,
ou ainda velhas bonecas podem se tornar tias ou avós das mais novas, durante
os momentos de brincadeiras, pois na imaginação infantil não
se coloca limites.
Nesse sentido vale novamente retomar Walter Benjamin (1984) quando se posiciona
contra a fabricação de brinquedos infantis ao ressaltar que, a partir
do século XVII de ofícios, são produzidos por artesãos
a partir de orientações e controles das corporações,
e depois no século XIX passam a ser produzidos em série, na forma
de produção industrial, deixando de ser miniatura e dispensando cuidados
maternos.
Além disso, brinquedos são objetos industriais e/ou artesanais, com
papéis reconhecidos pelos consumidores, mas que mantêm sua função
mesmo que não sejam utilizados para brincar (BROUGERE, 1997).
Já as brincadeiras podem ser vistas como manifestação de comportamento
social, uma vez que expressam atividades de caráter humano, ligadas a determinados
contextos sociais. A partir delas, as crianças podem recriar a realidade
mediante a utilização de sistemas simbólicos próprios,
ou seja, conseguem transformar uma coisa em outra. E implicam numa situação
organizada, na qual para aqueles que brincam, existe a necessidade de tomar decisões
(mesmo que seja numa estrutura imaginária), assumindo papéis, atribuindo
significados diversos às ações e aos objetos das brincadeiras
com as quais interagem.
Nas brincadeiras as crianças aprendem a fazer escolhas de papéis,
de objetos, de temas e de representações. Se a criança está
na escola, em sua casa gosta de brincar de professora, brincar de loja se a família
for de comerciantes, ou brincar de enfermeira ou de médico se for a um hospital,
e assim por diante. Além disso, elas também podem evitar de brincar
do que não gostam, já que o brincar implica na idéia do prazer.(BROUGERE,
1997).
Elas têm um acervo inesgotável de significações para
suas brincadeiras que são uma espécie de “faz de conta”,
marcado pelos acontecimentos e relações sociais vivenciadas. (WAJSKOP,
1990) O seguinte texto expressa desejos, comportamentos e sentimentos infantis frente
às possibilidades de brincar:
“A criança desde cedo intui o que é interpretar, transformar:
o lençol, manto real que lhe cai às costas, a bola de papel granada
que explode no território inimigo. E o território inimigo quase sempre
é cruel, tentando corrigir sua imaginação “educar”-
domesticar o seu instinto criativo, minimizar sua autoconfiança, potencialidade
de coragem...”
A partir do séc. XVII, com a afirmação da concepção
de infância, conforme salienta ARRIÉS (1989), cria-se também
um ideal de criança que se busca atingir pelos caminhos educativos. A educação
infantil passa a ser enfocada cientificamente, e objeto de discussões. São
configurados métodos para ensinar inspirados em Comenius e Rousseau. E, posteriormente
no séc. XIX, com as orientações de Montessori e Pestalozzi
são produzidos brinquedos educativos, altamente estimuladores porque apelam
para utilização dos sentidos através da manipulação
dos sons, cores, formas e relevo, destinados, sobretudo às crianças
portadoras de necessidades especiais, mas que também passaram a ser utilizados
pelas crianças “ditas” normais.
Desde então, a infância ganha um lugar social bem diferenciado na História
deixando a criança de ser considerada como um mini adulto, para ir sendo
cada vez mais qualificada e reconhecida “seja como produtora de conhecimentos,
seja como pessoa inteira, portadora de singularidades” (GALZERANI, p.66)
2. Por que brincar?
O ato de brincar e as brincadeiras são aspectos fundamentais na vida das
crianças. Brincar é essencial para a saúde física, emocional
e intelectual do ser humano.
O brincar contribui para reequilibrar, reciclar emoções e dar vazão
à necessidade de conhecer e reinventar (LIMA, 1992). As crianças são
naturalmente curiosas, ativas e querem vivenciar novas experiências. Desejam
sempre experimentar situações novas. Ao brincarem, as crianças
são estimuladas a desenvolverem pensamentos criativos, bem como crescerem
em seu desenvolvimento social e emocional. Para elas, as brincadeiras são
coisas sérias, nas quais não deve haver trapaça, ao contrário,
ao vivenciá-las firmam posturas de sinceridade, engajamento voluntário
e de cooperação/ doação. Elas não gostam de ser
interrompidas nesses momentos (e como bem atestam as mães), mostram-se resistentes
quando solicitadas para outras ocupaçõescomo tomar banho, almoçar
ou jantar, ou cuidar de outras obrigações.
Outro aspecto ainda a considerar, em relação ao brincar, é
quanto à formação de hábitos. Conforme ressalta Benjamin
(1984, p.75):
“a lei fundamental do brinquedo é a repetição. Sabemos
que para a criança ela é a alma do jogo; que nada a alegra mais do
que o “mais uma vez” (...) A essência do brincar não é
um “fazer como se”, mas um “fazer sempre de novo”, transformação
da experiência mais comovente em hábito. Pois é o jogo, e nada
mais que dá à luz todo hábito. Comer, dormir, vestir-se, lavar-se
devem ser inculcados no pequeno irrequieto através de brincadeiras, que são
acompanhadas de ritmo de versinhos. Todo hábito entra na vida como brincadeira,
e mesmo em suas formas mais enrijecidas sobrevive um restinho de jogo até
o final. Formas petrificadas e irreconhecíveis de nosso primeiro terror,
eis os hábitos.
Portanto, ao brincar as crianças vão construindo seus hábitos
cotidianos, mas constroem também uma consciência da realidade, ao mesmo
tempo em que criam possibilidades de modificá-la (WAJSKOP, 1990). No desenvolvimento
das brincadeiras iniciam sua integração social, aprendendo a viver
e conviver. Situam-se frente à realidade em que vivem, e ainda estabelecem
relacionamentos grupais de gênero, parentesco, amizade, etc.
Do ponto de vista psíquico, considera-se que é no brincar que o indivíduo
– criança ou adulto – pode ser criativo e utilizar sua personalidade
integral. E é somente sendo criativo que o indivíduo desenvolve o
eu (self). É no brincar que a comunicação e a interação
social ganham mais possibilidades de se concretizar.
VIGOTSKY (1984) considera que é na brincadeira que a criança se comporta
de diferentes formas, nem sempre correspondendo ao comportamento habitual de sua
idade, ou de seu comportamento diário. Na utilização de brinquedos
as crianças definem as estruturas básicas para as mudanças
de suas necessidades, e também formam a consciência de si e de alteridade.
Nas brincadeiras face a face reconhecem o(s) outro(s) compartilhando experiências
na realidade em que vivem.
Por fim, vale lembrar que ao brincar as crianças efetivamente concretizam
seu direito à infância e, consequentemente, seu direito ao não
trabalho (WAJSKOP, 1990). Nesse espaço social do brincar pode ser construída
uma identidade infantil na qual se situam posturas e comportamentos de autonomia,
cooperação e criatividade.
3. Por que brincar na escola?
Na escola as crianças são pouco orientadas para utilizar o brincar,
para desenvolver um pensar sobre brincar e brincadeiras. Nos ambientes escolares,
muitas vezes, considera-se que ao brincar a criança não está
fazendo nada, ou em outras palavras, não está tendo um rendimento
produtivo (WAJSKOP, 1990). Basta lembrar que na sala de aula, elas devem estar contidas,
obedientes e disciplinadas. Já no recreio elas podem se soltar e então
gritam, riem, correm demonstrando satisfação e alegria.
Cabe indagar por que o aprender e o brincar quase não se relacionam nas práticas
escolares, são vistos como coisas separadas no cotidiano escolar e, por vezes,
são considerados até antagônicos. Para alguns educadores, há
momentos e situações em que a brincadeira é colocada como uma
recompensa para um esforço reconhecido de estudo e trabalho. E, em geral,
só as crianças obedientes e disciplinadas é que são
premiadas.
Contudo, é preciso que os educadores tenham presente que o brincar também
resulta de uma aprendizagem. Aprende-se a brincar. As brincadeiras ocorrem num espaço
físico, mas também num espaço sócio-cultural, no qual
as crianças se situam descobrindo e conhecendo o mundo, fazendo sua leitura,
conforme sugere Paulo Freire (1991), e aprendem a partilhar e compartilhar emoções,
responsabilidades. Constroem e reconstroem conhecimentos, reconhecem os outros desenvolvendo
e firmando a noção de alteridade. Brincando vivem intensamente o presente,
não reconhecendo outros tempos de passado, ou de futuro e, por isso, são
felizes. Para os educadores, leituras e reflexões sobre o brincar e brincadeiras
das crianças nas vivências do cotidiano escolar deveriam ser objeto
de preocupação mais pontual por parte dos profissionais de educação,
seja dos professores ou da coordenação/ direção.
De qualquer forma para nós adultos, sejamos educadores ou não, pode
calar fundo em nossa razão e sentimentos esta consideração
de Benjamin (1984, p.102) “...quando um moderno poeta diz que para cada homem
existe uma imagem em cuja contemplação o mundo inteiro desaparece,
para quantas pessoas essa imagem não se levanta de uma velha caixa de brinquedos?”
Notas
1 - Os textos de Walter Benjamin sobre crianças e brinquedos, foram publicados
na Alemanha em 1969, e no Brasil em 1984.
Referências Bibliográficas
ARRIÉS, P. História social da criança e da família.
Rio de Janeiro, Zahar. 1981.
BENJAMIN, Walter. Reflexões: a criança, o brinquedo, a educação.
São Paulo, Summus,1984.
BOLLE, Willi. Reflexões: a criança, o brinquedo, a educação.
São Paulo, Summus. 1984.
BROUGÈRE, Gilles. Brinquedo e Cultura. São Paulo, Cortez. 1997 FREIRE,
Paulo. A importância do ato de ler. São Paulo, Cortez. 1992
GALZERANI, Maria Carolina B. “Imagens entrecruzadas de Infância e de
Produção de conhecimento em Walter Benjamin“ In Por uma cultura
da Infância. Campinas, Autores Associados, 2002.
LIMA, Elvira C.de A. S. “A utilização do jogo na pré-escola”
In Idéias, n.10. São Paulo, FDE. 1992
VIGOTSKY, L.S. A formação social da mente. São Paulo, Martins
Fontes. 1984.
WAJSKOP, Gisela. Brincar na pré-escola. São Paulo, Cortez. 1995. zx